Sou gorda mesmo e daí?




Ontem fui "xingada" de algo que nunca fui nas últimas décadas, pelo menos não na minha frente: de gorda. Xingada entre aspas porque eu sou gorda mesmo, é uma realidade. Na verdade eu prefiro dizer que "estou gorda" porque nunca fui assim, pelo contrário, cheguei a ter 50 kg com 1,80 m, o que representa um IMC de 15, bem abaixo do peso, inclusive essa faixa é a menor e começa em 19 (para minha altura, um peso até 84 kg está dentro do normal). Fui arrastada pela minha mãe à força ao médico porque ela estava bem preocupada com minha aparência e comigo em insistir que "eu estava gorda". Não, eu não sofria de anorexia e nem de bulimia, pelo contrário, eu comia e muito. Mas eu tinha uma vida agitada, era atleta, estudava, trabalhava, fazia estágio, teatro, cursos, dormia em média 4h por noite, o que até acabou me levando a uma estafa e um stress antes dos 18 anos.






Como o "ataque" foi público dentro do Twitter, foi normal algumas pessoas me procurarem preocupadas, "você está bem?", "não ligue para o que dizem!". Fiquei comovida e agradecida com tanto carinho mas uma pergunta me chamou a atenção: "como você não se ofende quando te chamam de gorda, como você lida com isso tão bem?". Isso me motivou ao escrever esse post ao invés de tuitar, porque eu mesma já falei sobre essa questão e sobre autoestima. Acreditei que seria importante dividir meu segredo de como manter uma autoestima elevada não estando dentro dos padrões exigidos por muitos.


Bem, em primeiro lugar, vou ter que contar um pouco da minha história, de como eu era muito magra e como cheguei a engordar tanto.

A nossa genética familiar é excelente para preservar a jovialidade de nossas peles, geralmente ninguém atribui a nossa idade real à nossa aparência, mas foi cruel com a questão de gordura, acho que 99,99% das minhas tias italianas por parte da minha mãe são obesas, comigo não seria diferente. Eu já tinha a tendência a engordar correndo no meu sangue. Eu nasci enorme, sempre confundo os números, se foram 5,100 kg e 53 cm ou 5,300 kg e 51 cm, de qualquer forma, completamente fora do padrão da época. Apesar da minha mãe ter praticamente 1 metro e meio e meu pai também ser mais baixo do que eu, eles eram exceção numa família de altos com ascendência europeia de países de "altos". Quando nasci minha mãe conta que as pessoas invadiam o berçário para ver aquele bebê enorme e gordo. Nasci de parto normal, coitada da minha mãe. Todo dia a paravam na rua quando ela me levava para passear ainda no carrinho de bebê para ver aquela criança imensa e gorda. Mas eu fui crescendo e emagrecendo.


Para começo de conversa, eu nasci com escoliose e tenho crondomalacia patelar grave nos dois joelhos além de geno valgo, isso já era um problema. Durante muitos anos eu frequentei a AACD em São Paulo e dormia com até 3 aparelhos medonhos que faziam com que eu sentisse dores horríveis pelo corpo todo enquanto minha chorava de dó e desespero. Eu queria arrancá-los porque não conseguia dormir e as sessões de fisioterapia era torturantes para mim.

 (na formatura do "pré", fui a segunda aluna na classe, medalha que guardo até hoje)

Me joguei nos esportes. Eu amava aquilo. Então pratiquei muito esporte. Patinação, dança, vôlei, ginástica rítmica, tênis até canoagem. Tinha treinos regulares, teatro, estudava muito, trabalhava desde muito jovem (14 anos) e ainda fazia os estágios. Eu me tornei muito magra porém "ossuda", acho que por isso eu me achava gorda.

(aos 11 ou 12 anos, em Ubatuba/SP)


 (entre 14 ou 15 anos, na Fazenda Vitória, Itapeva/SP - isso na minha mão é um cágado que pesquei no rio e atrás meu falecido avô)

Vamos recapitular: minha coluna era ferrada, meus joelhos eram ferrados, e aos 12 anos eu tive uma lesão séria no tornozelo durante os treinos que eu não tratei adequadamente e que acabou cobrando de mim por volta dos meus 16 e 17 anos e que me obrigou a para de jogar quando eu estava me profissionalizando e me confederando. O problema é que eu não conseguia praticar quase nenhum esporte mais, então parei e dei uma boa engordada. Leia-se "boa engordada" chegar aos 61 kg, ainda era magra e continuava me achando gorda, apesar das medidas de "miss". Dos 16 aos 21 anos eu também fiz uso de muitas drogas, principalmente cocaína e anfetaminas. Quando parei, também engordei bastante, cheguei aos 80kg, mas ainda estava dentro do padrão normal. Mas eu dançava, e muito. Nessa época era uma balda atrás da outra além de eu trabalhar como DJ (fora meu trabalho formal em horário comercial).

 (22 anos, nessa época fiz trabalhos como modelo, então eu ainda era "magra", mas me achava gorda)

Foi assim até os 23 anos anos quando me casei pela primeira vez e, fatalmente, engordei mais ainda chegando aos três dígitos: paramos com as baladas, com as danças e com o trabalho na noite paulistana. Na vida de casada entrei numa vibe workaholic mais doida ainda trabalhando até 18h por dia, de domingo a domingo. Acabei ganhando uma lesão na coluna cervical que me impedia de fazer qualquer atividade física, até uma simples caminhada. Para piorar, eu tinha uma alimentação desregrada, eu não comia besteira, mas ficava horas sem comer por causa do trabalho, então de um metabolismo meteoro fui a um de lesma. Fiquei 6 anos afastada do trabalho, o que para um workholic é pior do que a morte. Por causa disse tive depressão grave e vários outros problemas, cheguei a ficar viciado em tarja preta e a ser internada em uma clínica psiquiátrica. Ou seja, minha vida ficou literalmente cagada.

(meus joelhos problemáticos e tortos - no Vale Sagrado dos Incas, no Peru, fazendo cosplay de Indiana Jones, com 120 kg)

Durante esses eventos eu me separei, morei com uma pessoa e me casei novamente em 2001 (com uma pessoa 10 anos mais jovem que ainda me acha linda e gostosa e morre de tesão por mim, mesmo GORDA...

Durante os intervalos entre eles, eu estava gorda. Minhas amigas todas magras e lindas e eu: gorda. Eu me lembro de apenas um cara ter se referido a mim como "aquela gordinha". Eu estava interessada nele e fiquei triste quando soube. O cara era um gato maravilhoso por quem eu carregaria dezenas de trens e quando ele disse isso eu desencantei, desencanei,. Porém, algumas semanas depois, tivemos um romance.

Eu estava bem fora do padrão de garotas com quem ele se relacionava,  e aquilo me fez refletir sobre mim mesma e sobre como as pessoas se comportam em relação a si. Puxa, o cara "não gostava" de gorda mas ficou comigo. Depois tive um relacionamento tórrido e longo com um cara que era modelo uns 10 anos mais novo do que eu (e vocês conhecem o padrão de modelo). Aliás, eu passava raiva com ele porque ele estava magérrimo (não gosto de caras magros) e ele me dizia que precisava perder 500 gr. Eu queria morrer... Uma vez ele me disse o quanto eu era linda, maravilhosa, gostosa e especial. A gente terminava porque ele vivia viajando a trabalho mas toda vez que a gente se via a gente voltava... Eu perguntava porque e ele me dizia que tinha um tesão incontrolável e inexplicável por mim. E eu gorda. Na verdade ele foi o responsável por dar o pontapé na minha autoestima que meu ex havia jogado no esgoto. Tenho um amor eterno por esse cara até hoje, uma pessoa especial, hoje está fixado na PQP, casado, com filhos e feliz.

(eu fiquei tentada a publicar as fotos dos caras com quem me relacionei para vocês verem que não era exagero meu, mas não seria correto porque não pedi a autorização deles, mesmo porque alguns são casados hoje e outros são famosos)

Eu parei e refleti: puxa vida... mesmo eu estando gorda, os caras mais gatos, lindos e maravilhosos e que "não gostavam de gordas" ficavam comigo... e ainda me elogiavam... e nem me acho bonita!

A transformação


Decidi ser eu mesma e assumir a gordura. Eu era carinhosa, inteligente, sabia conversar sobre tudo, era engraçada, divertida, boa companhia. Eu decidi apostar em mim mesma: eu era um puta mulherão interessante. E olha... como fez diferença, quanto mais eu "me achava", mais eu era... Não que eu não tenha feito 357.897 tentativas de emagrecer, afinal de contas, é horrível ter que comprar roupa em loja especial, pagar mais caro ou escolher aquilo que fica melhor em você. Mas eu passei a gostar de mim e me aceitar. Passei a gostar de mim como pessoa e de não ter vergonha ou medo em ser rejeitada por ser gorda e, gente, como isso refletiu em mim. Eu não tinha aquele "pensamento normal de gorda" de que o cara não vai me dar bola porque eu era gorda, eu não estava nem aí, o máximo que poderia acontecer era eu levar um fora e só. E eu não iria morrer por causa disso. Era só mais um cara. Depois eu coloquei na minha cabeça que se um cara que não quer ficar comigo só porque eu sou gorda, não me merece, não é o tipo do cara que eu  quero para mim. Pense bem, hoje você pode estar magra, mas amanhã você pode sofrer uma doença, acidente, engorda, e ai? Ele vai te abandonar porque "não gosta de gorda"? O cara pode não sentir atraído mas não ficar com gorda porque não gosta de gorda é de uma mentalidade bem imatura e superficial. Então parei de sofrer e fui à luta. E, amigos, como eu passava o rodo, eu era bem "galinha" mesmo. Minhas amigas magras e com seus corpos malhados pela academia e plásticas não se conformavam. Geralmente quando saíamos eu voltava acompanhada e elas sozinhas. E isso ia me dando cada vez mais uma injeção de autoestima, é um ciclo retroalimentado.

Eu aprendi que a nossa autoestima depende apenas de nós. Não adianta te elogiarem se você não começar a se aceitar, e aceitar não significa se acomodar, mas não deixar que algo possa te abater e saber que você pode lutar para buscar a mudança. Eu sou gorda e não gosto de ser gorda, não sou feliz sendo gorda, mas eu não deixo de viver por isso, tenho autoconsciência dos meu limites mas não me sinto gorda a ponto de parar ou me limitar por causa disso, essa é a diferença. Mas hoje penso em emagrecer mais pensando na saúde e na idade do que na estética, eis meu segredo.

Então vamos nos amar mais e nos permitir e nos respeitar mais. Quanto às ofensas, deixe para lá, às vezes a vida se encarrega de dar uma boa lição nas pessoas, todos passamos por fases, eu também tive a minha ruim, apesar de nunca ter zoado gordas. Mesmo assim, eu me sinto mal quando alguém zombando de alguém gordo porque sei que a maioria não tem estrutura e autoestima suficientes para lidar com sua gordura, cada pessoa reage de uma maneira e cada coisa tem um impacto diferente sobre as pessoas. Uma simples palavra pode destruir uma pessoa, pode levá-la à depressão, ao confinamento ou até o suicídio. Gordura não tem somente a ver com a quantidade de comida que se come ou de como você come, é uma série de fatores. Muitos ficam surpresos quando digo que não consumo nem 800 cal por dia, se você não tem ideia do que é isso, uma dieta muito restritiva para emagrecimento tem em média 1000 cal. Eu não consumo frituras, doces, pra dizer a verdade, mal adoço o que bebo, um ou dos cafés ao dia.

Você pode ser gordo por comer muito e errado sim, mas também pode ter que travar uma luta contra uma doença e sua genética, gordo não é apenas um preguiçoso que se entope de bacon, tem muita gente sofrendo horrores por anos lutando contra a balança então não é justo que sejam ridicularizadas por algo que, muitas vezes, elas nem consigam combater. Nessa madrugada depois de escrever esse post vi algumas pessoas ridicularizando uma moça linda portadora de lipedema. Lipedema é uma doença hereditária e não tem cura, tem tratamento paliativo mas caro demais. Não adianta fazer dieta, tem muita gente MAGRA aparentemente gorda e doente. Se tiverem tempo, "googlem", é assustador, triste... Então, por favor, parem de ridicularizar os gordos. Obrigada.









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