Os rótulos do crime



Toda vez que uma pessoa é brutalmente assassinada por dentro eu morro um pouco também. As pessoas dizem que absorvo demais os problemas alheios mas eu não consigo me sentir indiferente pensando nas famílias da vítima, porque no final, sofre quem fica.
 
Mas quando o assassino é pobre, negro, favelado e menor, e a vítima é pelo menos da classe média, branca e mora num imóvel, bairro ou região um pouco mais privilegiada, eu tento me preparar para os textos recheados de clichês. Texto a gente vira ou desliza a página, fecha, simplesmente ignora e não lê, o problema é o quanto esse conteúdo preconceituoso e ofensivo é disseminado por todos os meios.

 





Eu não sei de onde estes autores vem, se são apenas do conforto da suas casas, do escritório com ar-condicionado ou da cadeira da faculdade, mas certamente das ruas não foi. Não sou estudiosa das ciências sociais mas convivi com pessoas e frequentei (grande parte da vida) os locais mais pobres e miseráveis.
 
Quantos sentiram o mau cheiro de algumas comunidades que convivem como verdadeiros lixos a céu aberto, sem saneamento básico, sem rede de esgoto, muitas vezes, vizinhas de valas de esgoto que se tornam insuportáveis no verão quando o forte fedor exala de tal forma que faz com mal consigamos respirar e temos a sensação de que vamos desmaiar ou não conseguiremos comer por um mês? Quem nunca frequentou esses locais nunca deve ter visto a dona de casa zelosa que cobre com um pano de um branco impecável a tampa do fogão velho doado para esconder a ferrugem. Ou o vasinho de flor artificial em cima da TV, logo abaixo do quadrinho cafona. Não deve ter percebido que no meio de tanta sujeira, pobreza e mal cheiro existem muitas pessoas que acordam às 4h da manhã para pegar três ou quatro 4 conduções para conseguir chegar ao trabalho. Ou aquele que recolhe livro de lixo para ler. Não deve conhecer a dona de casa que espera a feira acabar para recolher no lixo os restos de produtos que são descartados e ainda fazem pratos deliciosos com eles. 

Pra que tanto sacrifício quando vender uns pinos de cocaína por alguns minutos na esquina ou roubar aquele carro em um minuto pode ser muito mais lucrativo? Porque elas tem moral, tem caráter, respeito, empatia pelo ser humano e pela vida. Elas tem esperanças, tem valores, sabem que a única forma honesta de almejar melhorias na vida é através de sacrifico, do trabalho, e o único valor que eles tem são eles mesmos. Para eles a consciência é sua dignidade e isso não tem valor, ninguém consegue comprar. Eles tem sonhos mas não tem cobiça, alguns são conformados e pessimistas, mas outros sabem que, mesmo que isso demore muito tempo, a recompensa virá, possuem uma esperança inabalável e muitas vezes conseguem chegar onde querem com muita paciência e dedicação.
 
E de onde tiram essa força? De vários locais, alguns dos conselhos de pais, amigos, do chefe ou empregador, de histórias de superação que veem na TV, de professores, outros de religião, outros de exemplos negativos próximos que os convenceu de que o crime é um caminho curto para a degradação ou morte do ser humano, a vida do criminoso é curta, privada de liberdade e às vezes da possibilidade de gozar das suas conquistas.

Quando alguns autores colocam a pobreza, a cor, a condição social e econômica como pano de fundo dos crimes, culpando a sociedade e o Estado por atitudes individuais de pessoas que optaram pelo caminho criminoso, eu só consigo pensar nas pessoas de bem que estão dentro de suas casas assistindo ao jornalismo sensacionalista com dor no coração e querendo dar voz a sua indignação.
 
Pobre, negro, favelado não tem DNA do crime correndo em seus sangues, nem predisposição, nem nada. Crime é uma escolha e não uma opção. Crime não tem cor, raça, classe, idade, religião. Parem de ofender pessoas em condições inferiores colocando-as como "vitimas do sistema" como se elas fossem mais corrompíveis e corruptíveis por estarem nessas condições.

Sim, acho que a desigualdade é terreno fértil e tentador para quem se encontra em situação de desespero mas não subestimem o caráter das pessoas porque são pobres, negras ou faveladas. O que vocês ignoram é que o miserável tem muito mais experiência para enfrentar as intempéries da vida, ele não tem nada a perder a não ser sua consciência e dignidade e para eles, dignidade vai muito além da forma como vivem, se tem água, luz, esgoto, comida, se estudam ou trabalham, dignidade para eles é deitar a cabeca no travesseiro que muitas vezes nem existe mas terem a certeza de que estão fazendo o que é certo, moral e ético. "Eles são pobres mas são limpinhos"... de caráter e de valores.





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