O roteiro

Os nomes das pessoas, locais e empresas foram propositalmente modificados ou omitidos com o objetivo de preservar a identidade dos envolvidos.

Após um processo doloroso de separação, ela decidiu que precisava respirar. Viver a vida intensamente. Durante muito tempo, ela e Nádia eram inseparáveis, passavam o dia todo juntas e isso incluía também todas as noites. Viagens, baladas, aventuras, eram "unha e carne", elas fazíam absolutamente tudo juntas, eram muito amigas.

Nádia lhe apresentou muitas pessoas famosas e ela também. Ela levou Nádia para conhecer um restaurante cujos sócios eram do meio artístico, um deles da televisão. Por causa disso, muitos artistas e famosos frequentavam o local. Ela conhecia e conversava com todos e sempre saia daquele restaurante para alguma festa privada ou outra balada, sempre todos juntos, famosos e anônimos. Foi uma das melhores épocas de sua vida.






Em uma dessas noites em que o restaurante estava muito movimentado por causa de uma festa. Dois atores apareceram nesse bar, como tantos outros. Um deles era desconhecido de ambas, apesar de o terem visto algumas poucas vezes circulando por lá. O outro Nádia não apenas conhecia como já tinha tido até um romance de uma noite com ele no passado. Foi então que esse Nádia apresentou a ela.

Ele não era bonito, nem feio. Nem muito famoso, nem com muitos atrativos. Era um tipo comum, tinha mais ou menos a idade dela, no máximo uns cinco mais velho e mais baixo. Havia atuado em televisão, cinema e teatro, era o tipo de ator do qual todo mundo se lembra, mas que raramente sabe o nome. E nem era do tipo "galã". 

Depois de conhecê-lo melhor, ela o achou bem mais atraente pessoalmente do que ele aparentava ser, principalmente por ser daqueles homens que ficam mais charmosos quando envelhecem, e ela adorava isso.

Ele, Kurt, era um doce de pessoa. Engraçado, animado, um super humor, carinhoso, galanteador e  ficou impressionado com a altura dela. Sobe isso ele fazia alguns comentários que ela considerou um pouco inadequados enquanto a abraçava mas ela tentou minimizar e não levar tão a sério pelo fato dele ser amigo de Nádia e ela aceitar esse tipo de brincadeira e também por todos estarem bem alcoolizados. Tanto que ele pediu seu telefone e ela não viu mal algum em lhe seus números e e-mail.

No decorrer daquela noite, enquanto Kurt providenciava mais bebidas, Nádia teve uma espécie de recaída e confessou a ela que queria se relacionar com Kurt novamente. Ela questionou se Nádia tinha certeza do que queria e se não iria se iludir, haja visto que da última vez, depois do relacionamento rápido, ele a ignorou completamente. Mas em determinado avançado da hora Nádia sumiu com ele e alguns minutos depois eles voltaram. Logo ela imaginou o que eles foram fazer, fato este que Nádia confirmou depois. O problema é que Kurt parecia ter ignorado Nádia depois disso, parecia não se importar. Ela ficou refletindo como uma garota como Nádia se deixava cair num engodo desses e se permitia magoar-se depois. Mas Nádia não aceitava e preferia continuar sofrendo depois. 

A madrugada prosseguiu e Kurt estava tão alcoolizado que a abraçava e a beijava na boca várias vezes, rapidamente, na frente de Nádia, mas não era apenas um "selinho". Lógico que todos tentaram levar para o lado "brincadeira saudável entre amigos" para o clima não pesar e para que Nádia não se chateasse, mas ela, no fundo, sabia que Kurt queria algo a mais com ela e Nádia jamais poderia sequer imaginar isso.

Depois dessa noite, cerca de dois dias depois, o telefone dela ligou. Era Kurt. Não queria falar sobre nada em especial, queria apenas bater papo. Perguntou a ela onde ela morava mesmo porque, quando ela lhe disse, ele estava muito bêbado para se lembrar. Conversaram, riram, bateram papo como dois bons amigos. Falaram sobre amenidades até que Kurt deu o bote e a convidou para um jantar. Ela usou a tática do "quem sabe um café um dia desses" e parou por aí, interrompendo a ligação e alegando que precisava terminar algum trabalho qualquer.

Kurt passou a lhe telefonar quase que diariamente e sempre cobrando dela o "tal café". Diante das negativas e quando as desculpas se esgotaram, ele perguntou a ela quando ele poderia ir à sua casa. Todos os dias ele lhe fazia a mesma pergunta e ela sempre tentava se esquivar, rir e mudar de assunto, sempre se mantinha "ocupada" demais. Ela sabia que Nádia tinha esperanças em reatar algo com ele e não queria estragar isso, apesar dos convites dele serem irresistíveis.

Por coincidência naqueles dias ela e Nádia não estavam se encontrando ou se falando com frequência por causa de compromissos profissionais de cada uma delas. Então um pouco incomodada com aquela situação com Kurt, ela queria esclarecer uma cisma: ligou pra Nádia com a desculpa de comentar com ela sobre a última balada naquele restaurante naquele dia e assim que a oportunidade surgiu ela comentou sobre o Kurt para ver se Nádia revelaria algo. Nádia demonstrou-se decepcionada quando disse a ela que desde aquela noite não havia mais falado com Kurt e que estava esperando sua ligação desde então. Aquela noite em que Nádia o apresentou a ela, foi a última em que Nádia teve contato com ele. Foi então que acendeu o alerta em sua mente e ela teve certeza: não era fruto de sua imaginação e Kurt estava realmente investindo nela.

Ela desligou o telefone porque sabia que Kurt iria ligar em breve. A essa altura da história ela já sabia quando ele iria ligar: todo dia, o dia todo. Já tinha pronto o que iria perguntar e, assim que atendeu ao telefonema dele, perguntou a ele sobre Nádia e sobre o relacionamento dos dois. A resposta dele foi a esperada, Kurt disse, com todas as letras, que Nádia era uma garota legal, mas que era só sexo e eventual, e logo interrompeu o assunto sugerindo falar sobre os dois (referindo-se a ela e ele) e insistindo em querer vê-la. Ela nem deveria ficar surpresa pois imaginava que ele iria responder dessa maneira e reagir assim, mas ela não seria a portadora dessa informação pra Nádia, não dessa forma. Lógico que isso o fato de saber que Kurt se interessava por ela acabou acendendo nela um interesse nele, mas Nádia era sua amiga, acima de tudo, e ela jamais trairia sua confiança. Ela não conseguiria ter paz na consciência se tivesse algum tipo de envolvimento com Kurt.

Enquanto isso Kurt continuava a abordá-la severamente e a única forma que ela encontrou de tentar minimizar a dor de Nádia era aconselhá-la para que ela o esquecesse. Usou todos os argumentos que uma mulher usa para falar mal de um homem inclusive que Kurt não se importava com ela porque não a procurava e não lhe telefonava, que ele era egoísta, que não prestava e que provavelmente já estava investindo em outra mulher, o que era verdade, mas ela não poderia contar isso a Nádia.

Em determinado momento Kurt começou a usar armamento pesado. Agora ele sempre tinha um argumento para estar na porta da casa dela e as desculpas dela já estavam se esgotando. A essa altura alguém já deve estar se perguntando porquê ela não cortou o mal pela raiz: porque, no fundo, ela não queria. Ela gostava daquela amizade. Kurt era uma pessoa extremamente inteligente e interessante. E depois de um tempo ela também havia se afeiçoado a ele. Mas ela jamais poderia ter um relacionamento com ele. E também não poderia correr o risco de se encontrar com ele sem que Nádia soubesse e, muito menos, de ser assediada por ele e ou até de acabar cedendo às investidas dele.

Exausto mas ainda sem desistir das investidas, a desculpa de Kurt para vê-la passou a ser um tal "roteiro". Kurt sempre tinha um roteiro para estudar que ele tinha que pegar na casa de alguém que morava na mesma rua que ela, portanto, ele iria passar em frente à casa dela. Esse sempre significava quase todos os dias. Nos cálculos dela, Kurt já tinha uns dez amigos morando na mesma rua que ela... Coincidência? Não, perseguição. Ele não parecia disposto a desistir. Com medo, ela deu ordens explícitas ao porteiro de que ele deveria impedir sumariamente que alguém subisse ao seu apartamento sem ser anunciado, mesmo que fosse alguém com quem ele tivesse a visto algum dia ou que já estivesse ido lá antes, e isso incluía o Kurt. "Pode ser o papa ou Jesus Cristo, ninguém sobre!", disse ela ao porteiro, já que Kurt era famoso e, com certeza, conseguiria ludibriar o porteiro com seu charme e carisma. Ela também passou a ignorar as chamadas de interfone ou telefone fixo em determinados horários em que sabia que poderia ser Kurt. Pediu aos amigos que, se fossem em sua casa, que lhe avisassem antes por celular, já que a tecnologia do identificador de chamadas ainda não estava disponível para linhas fixas e ela não teria como saber se era o Kurt ou outra pessoa.

Os sentimentos eram confusos, ela começou a se sentir muito atraída por Kurt ao mesmo tempo em que se sentia intimidada por ele e culpada, enquanto Nádia continuava amargando uma depressão por causa dele. E Kurt continuava tendo um "roteiro" novo para estudar, todos os dias.

Um dia Kurt a prensou na parede. Se irritou porque ela sempre se recusava a aceitar seus convites e ele via aquilo como uma tentativa dela "bancar a difícil". E não era. Somente ela sabia o quanto apenas seu contato com ele iria magoar Nádia que nem imaginava o quanto ele lhe telefonava. Ela estava dividida e com medo até que um dia desabafou: "Nossa, quantos roteiros você já estudou estes dias?", perguntou grosseira e ironicamente. 

No fundo ela também estava insegura e talvez isso tenha lhe dado forças para gritar um "basta". Para quantas "Nádias" ele já não tinha usado a mesma desculpa do roteiro e de quantas ele já não teria partido o coração? Naquela noite talvez ela tenha pensado mais nela do que em Nádia. Na sua mente apenas pensava na imagem de Kurt ignorando Nádia depois deles terem se relacionado. Será que ele não seria mais um daqueles que usam a fama para conquistar mulheres e depois descartá-las? Não que Kurt fosse essa "pintura feia", mas a situação e seu mecanismo de defesa lhe obrigavam a tomar esse posicionamento. Talvez ele fosse um cara bacana para se relacionar e talvez realmente quisesse algo mais sério com ela além de uma noite de sexo, afinal de contas, ninguém investe tanto para tão pouco. Ela também não era nenhuma "Miss Alguma Coisa" de beleza que valesse tanto investimento apenas por sexo além de existirem dezenas de mulheres muito mais fáceis e loucas para se envolverem com ele de alguma forma. 

Ela ficou com aquele sentimento de não ter arriscado e odiava isso, mas não havia muito a fazer.

Kurt parou de procurá-la. Certamente deve ter desistido e pensando que ela era a mais fresca e puritana das mulheres. E ela não era assim, pelo contrário, principalmente naquele momento, mas havia muita coisa em jogo: seu coração e uma amizade.

Ela continuou dirigindo sua vida enquanto Kurt dirigia televisão, cinema, atuava, produzia e escrevia. Durante muito tempo não o viu ou falou com ele, exceto por pouco que acompanhava do seu trabalho, mas sempre à distância. Toda vez que ouve ou lê a palavra "roteiro" se lembra dele. Sentiu orgulho dele em dois trabalhos onde recebeu críticas muito positivas e aquela imagem negativa dele, que ela mesma havia criado para ela com o intuito de defender a si mesma e à Nadia, sumiu por completo. Kurt foi garoto propaganda de uma marca do qual ela não gostava das peças publicitárias, mas sorria toda vez que o via atuando nele. Assistiu a um filme somente porque ele participou dele. 

Muitos anos depois o viu em uma rede social, era amigo de Nádia. Criou coragem para um contato e o adicionou. O aceite dele era um sim e, sorrindo, ele disse que se lembrava dela: "claro!". Ela sorriu de volta e disse a ele que nunca mais poderia esquecê-lo depois de ver seu comercial, aquele grudento que ela odiava para aquela marca. Ele riu e assim voltaram a ser bons amigos... mas sem roteiros dessa vez...





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