Meu dia de "hacker"



Já mencionei  em diversos locais que sou internauta desde meados de 1997 onde eu "chateava" via BBS e que tinha uma vida aparentemente normal até o início de 1999. Era casada, trabalhava em uma grande empresa de telecomunicações em São Paulo e meu marido pertencia à Diretoria de um banco internacional. Assim como meu ele, sempre fui workholic, provavelmente eu mais do que ele pois eu o levei a esse caminho. Talvez este tenha sido um dos motivos de nossos maiores problemas conjugais. Nessa época a internet era mais do que diversão e amor à tecnologia, era uma fuga. Acabei me envolvendo demais com o mundo virtual, fiz amigos e inimigos.

 







Pelo fato dele atuar em uma área específica do banco completamente ligada a marketing e sistemas, temas relacionados à "segurança" e "hackers" eram normais em casa, mesmo porque, dentro do banco, sua equipe constantemente contratava hackers americanos especializados em testar as falhas de segurança do sistema de banco de dados do banco, portanto, era um universo conhecido para mim.  Além do meu trabalho "oficial", eu desenvolvia uma função que para mim era mais um hobby, um trabalho voluntário: era administradora de um conhecido chat de um portal internacional.

Eu não sei como tudo começou e o porque, mas talvez pelo fato de estar envolvida nesse portal acabei sendo vítima de “crackers”. Isso acabou fazendo com que eu fizesse amizade com alguns hackers (do bem) e me aprofundasse em alguns assuntos relacionados a segurança para que eu pudesse preservar a mim mesmo, e além disse eu eu e sempre fui uma tremenda curiosa metida. Era comum minha troca de mensagens sobre o assunto com várias pessoas, amigos ou não, conhecidos ou não, hackers ou não. Contudo, que fique bem claro nunca efetuei nenhuma tentativa cracker, tampouco aprovava ou aprovo tal prática. Na verdade eu já tentei, mas sempre inofensivo como romanticamente acreditávamos

Na minha empresa eu era bem conhecida pelo fato de ter sido umas das primeiras funcionárias. Além disso assumi uma área onde, obrigatoriamente, eu tinha contato com todos os departamentos da empresa e detinha informações confidenciais. Por causa disso, acabei estreitando relacionamentos com pessoas chave e importantes da empresa, às quais a maioria dos funcionários nem tinha acesso e minha amizade, muitas vezes, ia além de apenas um contato meramente profissional.

É bom que nesse momento eu abra uma observação importante sobre minha vida e minha personalidade: sempre fui muito alegre e brincalhona e isso se tornava uma ameaça. Se por um lado era uma pessoa agradável para alguns, para outros eu era uma ameaça. Soma-se a isso um grande defeito meu: o de falar muito sobre minha vida pessoal. Não que eu saísse por aí espalhando aos quatros cantos o que eu fiz, fazia, deixei ou deixava de fazer. Mas aos poucos, em conversas, as pessoas acabavam descobrindo coisas sobre minha vida e meu passado, como por exemplo, que eu havia trabalhado nos cenários artísticos e da noite paulista, conhecia bandas, músicos, artistas em geral, tinha contatos com vários, emissoras de TV e amigos "famosos". Os trabalhos que eu havia feito na adolescência e início da fase adulta me proporcionaram isso. Fiz amigos influentes e tinha contatos. Alguns acabavam descobrindo e, curiosos, me pediam detalhes. Eu não via mal em contar minhas histórias, para mim "celebridades" eram pessoas completamente normais e não me custava nada satisfazer a curiosidade desta ou daquela pessoa. Geralmente me perguntavam se conhecia tal pessoa e "como ela era", se era legal, acessível, se era assim ou assado. Apenas isso. Eu sempre estava receptiva a responder e a satisfazer à curiosidade das pessoas, mas sem tocar em assuntos delicados, íntimos ou pessoais. Me lembro de uma colega ter encontrado na minha agenda, por um descuido meu, uma foto minha com um famoso vocalista de uma conhecida banda nacional com uma dedicatória romântica e íntima, mas neguei até o quanto pude que tivéramos um relacionamento amoroso. Ela ria, pois sabia que eu estava tentando encobrir a história, até mesmo para preservar a mim e ao moço. O fato é que eu não via nada de sensacional nos meus "causos" tampouco enxergava a maldade nas pessoas.

Lógico que, como em qualquer assunto ou situação, algo ou alguém pode se tornar vítima de inveja, mas eu não me dei conta disso. Quando falo sobre "inveja", digo isso porque não há outro motivo aparente que tenha sido o gatilho para o que me aconteceu e que irão ler a seguir. A ameaça esteve ao meu lado o tempo todo e eu demorei a perceber.

O cenário era o seguinte: eu estava sendo preparada e militarmente treinada pelo meu superior para agarrar uma promoção de cargo. Dia normal de trabalho e para variar eu estava atrelada ao meu computador como sempre fazia diariamente. De repente a tela simplesmente "apagou". Não, não era "boot", nem queda de energia, era se como meu computador realmente tivesse sido desligado da tomada mas, aparentemente, nada havia de errado. "Coisa de filme". Na mesma hora eu liguei para o Suporte Técnico da empresa já "xingando" todo mundo, no bom sentido, porque na verdade eu já era uma velha conhecida deles. Grandes amigos pois na empresa eu era considerada uma "hard user" e, consequentemente, uma das que mais trazia problemas a eles. No fundo, depois do trabalho, sentávamos em uma mesa de bar e ironizávamos nosso relacionamento e meus constantes pedidos. Essa ligação foi completamente diferente de todas as outras. Era muito estranha pois a pessoa do outro lado da linha parecia confuso ao tentar me esconder algo. Enquanto eu estava ao telefone um bando de homens desconhecidos apareceu na minha baia e confiscou minha máquina, literalmente. Até então eu não fazia a mínima ideia do que estava rolando e apenas me disseram que meu computador precisaria ser recolhido para reparo. Como assim?

Entrei em pânico pois meu trabalho dependia 110% do computador e minha rotina virou um caos já nos primeiros minutos daquele dia. No momento seguinte cheguei a pensar que eles iriam levar meu computador para outra baia porque estávamos de mudança de andar, mas depois me lembrei que meu chefe havia dado ordens expressas para que a minha mudança em especial fosse muito bem agendada e organizada, pois eu não poderia ficar sem o computador por um dia sequer. Ao me lembrar desse mero detalhe, meu pânico tomou proporções dantescas. A questão toda é que eu detinha informações extremamente confidenciais da empresa, todo o funcionamento da empresa estava na minha máquina e até o passo a passo de todos os sistemas, além de informações de marketing, novos produtos, enfim, eu era uma bomba ambulante. Eu estava tão transtornada que nem percebi que meu chefe, aquele mesmo que havia feito mil recomendações em relação à minha mudança de baia, estava calmo demais. Teoricamente ele deveria estar muito mais histérico do que eu, principalmente por ser uma pessoa do time do "tudo para ontem". Mas eu estava tão preocupada com a pilha de coisas que estava deixando de fazer por causa da falta do computador que naquele momento não processei a  apatia aparente do meu chefe misturada com certa tensão e estranhamento comigo. Ele apenas disse para eu fazer o que desse para fazer sem o computador.

Os dias se passaram, 1 ou 2, não me recordo ao certo, e eu continuava uma pilha de nervos pela ausência do meu computador e meu chefe cada vez mais estranho comigo. Cerca de uns 3 ou 4 dias depois, exatamente no dia da minha mudança de baia, fui chamada para uma reunião. Me lembro da minha reação inicial: irritada pela mudança, pela falta do computador e agora por não ter sido comunicada com antecedência sobre a reunião, mas depois me lembrei de que todas as reuniões eram agendadas e confirmadas via sistema e eu estava sem computador. Mesmo assim, já entrei na sala com uma aparente irritação pois pensei: "custava terem me avisado pessoalmente com antecedência já que todos sabiam que eu estava sem computador?".

Quando entrei na sala, emudeci. Eu imagino que minha fisionomia tenha mudado de vermelha de raiva para branca de susto. Paralisei. Congelei. Demorou um pouco para que eu pudesse digerir o que estava acontecendo e explico porque: a maioria dos personagens que estava naquela sala eu nunca havia visto antes, com exceção do meu chefe, minha Gerente e meu Diretor. Alguma coisa estava errada. Jamais marcariam um reunião com pessoal externo naquele andar e naquela sala. Nossas minúsculas salas de reunião eram para tratarmos de assuntos internos com outros funcionários ou departamentos da empresa, nunca com pessoal externo, mesmo que fôssemos velhos amigos. Reuniões com equipes externas eram agendadas nos andares dos VPs, no mínimo! Havia algo de muito errado acontecendo ali e eu não fazia a mínima ideia do que se tratava.

Alguns segundos atrás de mim alguns funcionários do TI, especificamente da área de segurança da empresa, entraram na sala. Pensei (ingenuamente): “OK, vamos tratar da segurança de dados, especificamente dos meus dados e das informações que detenho e do tratamento que elas devem receber antes de serem divulgadas aos nossos clientes”. Parcialmente correto. Mas logo em seguida descobri que os homens engravatados e de cara fechada eram ... da policia federal... Isso mesmo, você não leu errado: P O L Í C I A. Não importava se era militar, civil, federal, estadual, polícia é polícia e se ela está envolvida algo esta errado! Isso tudo ocorreu em apenas algumas frações de segundos e parecia loucura. Fui acometida por fortes tempestades mentais de pensamentos, suposições, especulações e sentimentos. Na verdade eu não conseguia organizar minha cabeça e meu coração naquele momento. "Pronto, notícia ruim. No mínimo vieram me dar uma notícia de algo muito ruim e grave que tenha acontecido com minha família", foi a primeira coisa que passou pela minha cabeça. Mas então o porquê da equipe de TI? Não, não deveria ser isso. "Vou ser demitida, é isso!". “Com a presença da polícia? Também não!”. Meu Deus, o que representava aquilo?

Sem sequer se apresentarem começaram a me bombardear de perguntas e todas relacionadas a hackers. Se eu mal conseguia respirar, imagine responder às perguntas. "Não. Nãooo, não... Claro que não!". Era tudo o que eu respondia! Quando consegui compreender o que estava acontecendo, entendi a gravidade da situação: estavam me acusando, informalmente, de ser uma hacker que estava tentando burlar o sistema da empresa e vendendo informações confidenciais para a concorrência. Isso mesmo. Novamente você não leu errado. Para eles eu era uma hacker infiltrada há quase 2 anos na empresa. Isso mesmo, "euzinha", de "tailleur", pretinho básico, salto alto, maquiada e arrumada... uma "hacker"... Me senti a própria mafiosa, ainda mais vindo de uma família italiana! Será que existem "hackers italianos"? Então me lembrei de um detalhe que complicava mais ainda minha situação: eu realmente tinha um amigo que trabalhava na fornecedora técnica do concorrente, mas sequer nunca falamos sobre trabalho. Nossa relação era estritamente pessoal. Porém, para piorar ainda mais o quadro, eu realmente tive um relacionamento amoroso com esta pessoa, breve, mas tive, o que fazia de mim mais suspeita ainda. No mínimo devem ter traçado um quadro onde a amante apaixonada entrega tudo ao seu amado, inclusive os dados confidenciais de onde trabalha como prova de amor. Eu estava num filme e não sabia.

Fiquei cerca de 7 horas na sala, chorando, tentando explicar que eu nem sabia sobre o que eles estavam falando mas, infelizmente, eu tinha mais "contras" do que "prós" e não iria ser fácil convencê-los de que estavam enganados: meu amigo no concorrente, amigos hackers, chat, vida virtual "agitada", informações confidenciais... tudo o que eu dizia era rebatido, questionado. Me apresentaram vários documentos que eles diziam ser "provas", mas na verdade nem deram a oportunidade de verificá-los. Jesus Cristo, eu estava ferrada e presa em uma tremenda enrascada, em um verdadeiro filme policial com ficção científica e drama, com tudo e todos contra mim! Como eu ia sair dessa?

Tive que jogar baixo, mas limpo, e apelar para o bom senso (ou falta dele) e a única coisa da qual eu conseguia me lembrar era do meu marido. De fato estávamos passando por um longa e dura crise conjugal mas, qual ser humano, qual esposa em sua consciência, iria fazer algo semelhante em troca de dinheiro com um marido diretor de um banco internacional? Meu único argumento era afirmar constantemente que eu “não precisava daquilo" e que eu nunca iria fazer algo que prejudicasse meu marido e sua posição (mesmo que estivéssemos em pé de guerra, o que não era o caso). Em uma suposta separação eu me sairia muito melhor ao lado dele e não contra ele! Eles pareciam reconhecer que eu tinha um bom nível de vida, não era rica, mas tinha um excelente carro, viajava no mínimo de uma vez a das vezes por ano ao exterior, jantava fora todos os dias, me vestia bem, estava com uma carreira em ascensão, enfim, eu não precisava jogar tão baixo! Além do mais, dois dos meus chefes já haviam trabalhado comigo em outra empresa, eles me conheciam muito além do ambiente de trabalho! Eu até acredito que a situação não foi mais drástica, justamente pelo fato dos meus chefes sempre se referirem a mim como “uma pessoa acima de qualquer suspeita, extremamente reta, correta, ética e direita”.  Apesar da minha "porralouquice" aparente no fundo e eu era uma "caxias" certinha e me cobrava o tempo todo por resultados perfeitos! Eu até imagino que esta história tenha surpreendido tanto a eles quanto a mim, mas eu tinha que provar minha inocência a qualquer custo! Não era nem mais a questão do emprego, era uma questão pessoal sobre a minha dignidade!

A certa ponto da discussão e do interrogatório e já com olhos inchados de tanto chorar eu cheguei a implorar que então me mandassem embora e me indiciassem, porque eu não estava mais aguentando aquela situação. Na verdade eu já não tinha mais energias para me defender e já estava "chutando o pau da barraca", só não queria mais passar por aquilo tudo. Eu só sei que esta atitude deve ter funcionado porque, a certa altura, meu Diretor, um americano muito jovem, e extremamente simpático que dizia acreditar na minha inocência, disse que não queria me demitir ou me acusar de algo (bondade dele... depois de tudo o que passei naquela sala...). Disse que confiava em mim e queria que eu continuasse na equipe, portanto me fez uma proposta que consistia em me manter na empresa, mas com a condição de ser monitorada 24h... uma espécie de BBB empresarial... Mesmo assim achei justo e concordei, talvez essa fosse minha única chance de mostrar minha inocência nem que isso demorasse mais do que eu esperava e depois saísse da empresa. Eu queria deixá-la da mesma forma que entrei: de cabeça erguida. Mas o que eu não sabia, e que descobri mais tarde, é que eles também estavam monitorando minha vida pessoal inclusive meus acessos a Internet de casa, meus telefones e celulares pessoais. Tudo foi "grampeado". Minha vida foi grampeada e devassada e eles tinham em mãos até os logs de minhas conversas picantes com meu ex-amante. Depois eu cheguei a me arrepender por não ter processado a empresa por isso. Tudo isso, tudo o que havia feito comigo e com minha vida me foi dito “em OFF” algum tempo depois pelo próprio Diretor de Segurança de Sistemas da empresa, um brasileiro que cresceu e viveu nos Estados Unidos, tendo trabalhado para um dos maiores bancos estrangeiros. Ou seja, o cara era fera e, melhor, realmente gostava de mim (isso vocês mesmo irão constatar mais tarde.). Tive minha vida profissional e pessoal, real e virtual, completamente violentada, para não usar outro termo que melhor caberia aqui.

Alguns minutos depois de eu ter deixado a "sala de torturas" eu precisava tomar um café bem forte e fumar um cigarro e desci à área de fumantes da empresa. Foi então que o Web Designer da empresa, que eu achava um cara muito interessante, se aproximou de mim. Depois de quase 2 anos trabalhando naquela empresa aquele era o pior momento para ele estreitar um contato comigo. Foi então que, sorrindo, ele me perguntou se eu era "famosa hacker". Socorro! Se ele, que eu mal conhecia, estava sabendo, então toda a rede de relacionamento dele estava e isso significava praticamente a empresa toda, pois ele era mais conhecido e popular do que eu. Eu não sabia se chorava ou se ria, ou se talvez saísse correndo, quem sabe enfiar minha cara em algum buraco, me jogar à frente do primeiro caminhão da Marginal do rio Pinheiros... então me limitei a dizer que “não sabia do que ele estava falando”, que “deveria ser um engano”, uma “fofoca de empresa”, sei lá... qualquer coisa... Ainda fui cínica indagando a ele que, se eu fosse mesmo hacker, é lógico que eu não estaria trabalhando naquela empresa! (Aiii...). Lógico que ele lançou aquele sorrisinho cínico do tipo "me engana que eu gosto", mas o saldo positivo é que até consegui o número do celular dele (para a inveja das inimigas), além de um novo amigo!

Depois da tempestade vem a bonança? Talvez, nem sempre isso é verdade ou ocorre da maneira como esperamos. No meu caso veio mas da maneira mais tosca. Semanas depois do meu "Dia de Terrorismo Pessoal" eu estava, como sempre, fazendo hora extra porque precisava terminar um projeto "para o dia anterior" (também como sempre). Não era uma cena rara encontrar todo o andar apagado somente com uma pequena luz iluminando apenas minha baia ou até mesmo a própria luz do monitor como única fonte de luminosidade. Eu não me recordo com detalhes, mas já deveriam ser por volta das 21h, 22h e, neste horário, eu não esperava por visitas. Eis que me aparece o tal “Diretor simpático de Segurança de Sistemas”, aquele mesmo citado alguns parágrafos atrás, com uma fisionomia indecifrável. Ele não disse nada. Nem me cumprimentou. Suspirando puxou uma cadeira e sentou grudado a mim. Colocou sua mão sobre a minha em cima do mouse, mas de uma forma paternal e me disse: "tenho algo novo para você...", com uma pausa dramática. Confesso que aquele "novo" não me deixou muito esperançosa. Para mim significou: "aconteceu de novo" e eu não iria suportar uma nova carga ou um "déjavu"... Eu soltei apenas um "ahhhh, nãooo" que rapidamente foi interrompido pelo seu  português corretíssimo mas com forte sotaque americano: "eu sempre acreditei em você mas estava seguindo determinados protocolos que minha posição exigia e por pressão de terceiros acima de mim... mas porque gostar muito de você, por eu conhecer seu trabalho e sua capacidade e por tudo, você teve uma nova chance para que eu e as pessoas que acreditavam em você pudéssemos provar que os outros estavam enganados e para que eu pudesse pegar o verdadeiro culpado”. Continuou: “desde o princípio o Presidente da empresa e o VP Executivo pediram sua cabeça, sem pestanejar, mas para mim era uma questão de honra provar que eu sempre estou certo”. “Todos nós colocamos nossa cabeça a prêmio por você porque sabíamos que não iríamos nos arrepender (no fundo ele estava certo, muitos estavam apostando em mim e poderiam ter sido prejudicados), agora olhe o que achei na sua máquina". Eu simplesmente não acreditei no que vi... Lembro-me como se fosse hoje de que me senti  perplexa e não tirava os olhos da tela do computador. Afinal, eu nunca tinha visto aquilo antes... Não no meu computador, não daquela forma.

O que estava adiante de nossos olhos, o que parecia ser um simples arquivo TXT, na verdade era um "log" de acesso de um dos sistemas mais confidenciais da empresa, dos quais somente o Presidente, os VPs e acionistas tinham acesso. O log registrava tentativas de acesso da minha máquina, no meu horário de trabalho e com meu login de rede. Só que não era só isso, o "log" indicava que eu estava tentando invadir o sistema e o computador do presidente e tentando quebrar a senha do "próprio", inclusive com tentativas bem sucedidas. Meu Deusssss, o que era aquilo? Eu congelei e, garanto a vocês, quase desmaiei. E seria a primeira vez que isso teria acontecido. Eu fiquei tão assustada que nem percebi o que ele estava tentando me dizer, e olha que era uma prova incontestável para meu próprio bem! "Anna", ele disse", "você não está prestando atenção no detalhe mais óbvio e amador... a pessoa que plantou isso na sua máquina para te incriminar fez isso uma vez e agora fez o mesmo novamente, porém, AGORA, eu tenho a prova física de que não foi você por um erro infantil e primário". "Como assim?", pensei, "será que estou tão assustada que não consigo enxergar algo que está à minha frente?”. Ele chegou a perguntar em que dia meu computador foi recolhido e formatado... “Mas que diabos este maluco está tentando me dizer? Ele ficou louco? Que diferença faz o dia que eu queria esquecer: o dia em que o inferno desceu à Terra para me atormentar?”. "Anna, a data do arquivo do log é anterior a data da formatação da sua máquina... isso é impossível...  além do mais seu acesso a esta rede está completamente bloqueado... criamos uma armadilha na qual o verdadeiro criminoso caiu...". Suspirei aliviada e mal conseguia chorar de alegria tamanha minha perplexidade misturada a um sentimento de missão cumprida e de justiça. E de raiva.

No ano seguinte eu fiquei sabendo que ele havia me convidado mais de 3 vezes para fazer parte de sua equipe dele mas meu chefe barrou o convite e fez questão de evitar de que eu tomasse conhecimento. Existia uma política interna para promoções de outros departamentos então ele procurou por meu chefe várias vezes que, sem me consultar, disse que eu não tinha interesse em mudar de área. Ao mesmo tempo em que fiquei "louca da vida” com meu chefe a ponto de cortar relações pelo seu egoísmo, por outro lado me senti orgulhosa pelo meu reconhecimento profissional, mesmo que me tenha custado muito pois um dos meus sonhos profissionais era o de trabalhar na área de segurança de sistemas e tive uma oportunidade ocasionada à duras penas, mas que eu não cavei, mesmo que eu tenha tido conhecimento muito tempo depois.

A única certeza que tive foi a de que alguém realmente estava tentando puxar o meu tapete. O pior é que eu sabia quem poderia ser a única pessoa que poderia fazer isso mas ninguém tinha como provar. Pior foi eu ter que conviver com essa pessoa, do meu lado, por ainda 2 anos. Se o verdadeiro culpado foi pego? Não... Na verdade ele não estavam fazendo nada contra a empresa e sim contra mim. A pessoa da qual eu desconfiava tornou-se “queridinha do meu chefe” mas foi misteriosamente demitida alguns meses depois, sem qualquer motivo aparente. Se ele realmente era o culpado eu não sei, ao menos não posso provar. Também nunca me revelaram a verdade e consequências do fato. Houve uma reformulação do departamento de TI. O "cabeça" da "turma" foi convidado para trabalhar em outra grande empresa e levou todo o departamento junto. Algum tempo depois entrei em licença médica a acabei perdendo o contato com todos. Talvez tenha sido melhor da maneira como terminou: sem lembranças e sem ressentimentos! E com meu orgulho restituído! Em 2006 eu deixei definitivamente a empresa, de cabeça erguida, com a ficha limpa, tendo sido convidada por ex-funcionárias dela para fazer parte de outros projetos. Mas nunca irei me esquecer do meu “salvador”, o Diretor de Segurança de Sistemas da empresa, o brasileiro educado no exterior com sotaque gringo que manteve-se quieto durante toda minha inquisição e um dia pousou sua mão sobre a minha como sinal de reconhecimento e ternura. Por ele, e somente por ele, desisti de mover um processo contra e empresa porque eu sabia que ele seria prejudicado mesmo que, durante todo o tempo, ele  tivesse tentado me proteger...






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