A história que eu nunca me esquecerei.


Fiquei uns bons minutos sentada em frente ao meu computador pensando em qual seria o melhor título para este post. Não consigo falar em recomeço porque nunca deixei de ser quem sou. Não saí simplesmente de um casca e me tornei outra pessoa. Seja como personagem ou não, sempre fui a mesma pessoas com as mesmas opiniões, formas de encarar e vida, sentimentos e comportamento. Mas, independente de títulos ou rótulos, percebi que muitas pessoas, fossem elas amigos ou seguidores, não estavam entendendo muito bem o que estava acontecendo e essa "mudança", se é que posso chamá-la assim, acabou gerando algumas dúvidas e questionamentos.




Sempre fui aficionada por tecnologia e novidades e quando a internet começou no Brasil, não foi diferente. Eu não me recordo quando eu comecei a navegar pelas redes BBS, a internet antes da internet, mas me considero oficialmente internauta desde meados de 1996.

Até meados de 1998 eu tinha uma vida "normal" sob o nickname de "AnnydeSampa" ou "AnnySP" até ser vítima de especulações e hackativismo. Na época, no submundo cibernético, ainda existia aquela visão romântica do hackativismo e a divisão entre "hackers do bem" e "do mal" e, com o objetivo de aprender a me defender, movida pela minha paixão pela tecnologia e desafios, comecei a me enturmar com vários hackers. E assim conheci um deles: "LoboSolitário", um "hacker do bem" completamente inofensivo. Em 1999 cheguei a ser acusada de hacker quando trabalhava na Claro, então BCP, o que depois foi devidamente esclarecido e me rendeu cinco propostas de promoção, às quais eu nunca tive conhecimento pela minha própria superiora.

Com toda aquela confusão de ter minha vida invadida e exposta e de ser acusada injustamente, fiquei arrasada, devastada e não via outra solução a não ser se afastar da internet por um tempo, mas continuei com permissões e privilégios de administradora de um antigo portal multinacional, uma espécie de operador de iMIRC. Em outras palavras, eu tinha acesso a todos os usuários logados no site e tinha plenos poderes para adicionar, remover ou banir usuários. Uma noite eu estava no ICQ com o "LoboSolitário" quando recebi um alerta de que o chat deste portal estava sendo invadido por hackers. Não tive dúvidas, usei minhas permissões, me loguei no chat e bani os usuários que estavam causando problemas. Foi quando nasceu a "Loba Muito Cruel", uma brincadeira com o nome do meu amigo. Exceto pelo Lobo Solitário, mesmo os amigos que me conheciam não sabiam que era eu quem estava logada sob aquele nickname. Logo em seguida conheci "Wolf" justamente por causa da similaridade de nicknames e nos tornamos namorados. Eu já admirava lobos e, inclusive, estava lendo dois livros sobre eles, acabei criando um site sobre lobos, então passei a adotar o nickname de "LobaMuitoCruel" pública e definitivamente.

Até 2001 foram vários encontros e desencontros, até encontrar o Giovane, meu atual marido. Ao me casar, em 2001, acabei perdendo o fascínio pela internet por um tempo. Durante um bom tempo a internet manteve-se estagnada sem muitas novidades que despertassem meus interesses até o surgimento do Orkut, quando vi nele a oportunidade em rever amigos e de exorcizar meus demônios interiores escrevendo sem ter que usar minha identidade verdadeira. Mantendo-me sob o anonimato eu teria mais liberdade em vomitar as palavras e minhas histórias. Foi então que achei que a melhor solução seria ressuscitar a "LobaMuitoCruel" e criei um blog, mas, com as mudanças e dificuldades dessa época, principalmente de acesso à internet, foi um retorno morno e pouco significativo.

No início de 2009 a "LobaMuitoCruel" voltou definitivamente porque eu queria poder compartilhar histórias, experiências, derrotas e vitórias e as formas como consegui superar as dificuldades pelas quais eu passei. Eu sentia uma necessidade muito grande em mim de reencontrar velhos amigos e de escrever sobre o que eu sentia de uma forma geral, como eu me sentia e das coisas pelas quais eu tinha passado, mas não queria ser reconhecida. Além do mais, eu passei a ter parentes e amigos conhecidos e importantes, não queria envolvê-los em histórias politicamente incorretas sobre um passado meu meio negro e cheio de erros, não queria que meu nome real fosse associado a eles e meu sobrenome não é comum, todos do mesmo sobrenome são parentes, não havia como eu me esconder sem manchar a vida e carreira deles. Eu não importo em me expor, não tenho vergonha do que eu fiz e nem me arrependo, mas não quero que a imagem deles fique marcada pelas minhas loucuras do passado.

Apesar de estar no Twitter desde 2009 somente em 2010 me tornei mas ativa na rede chegando a ter mais de 25.000 seguidores no início de 2013. Ter muitos seguidores no Twitter enche o ego de qualquer um mas também traz uma série de transtornos, para começar, a responsabilidade do impacto de qualquer coisa que eu diga. Por outro lado, quanto mais eu crescia, maior era o interesse das pessoas em me conhecerem, para eles, eu era uma celebridade de Twitter e isso não era bom. Quanto mais queriam me conhecer e quanto mais eu conhecia pessoas influentes, mais eu tinha que me esconder e nem podia participar dos eventos da internet com medo de que minha identidade fosse vazada. O fato é que me manter anônima me incomodava e muito. Eu tinha que escolher quais eram as pessoas elegíveis, em que eu poderia confiar e dizer quem eu realmente era. A descoberta da minha identidade não afetaria minha vida, apenas os projetos que eu tinha para a personagem mas meus amigos souberam manter sigilo, aliás, obrigada a todos que se mantiveram discretos e guardaram meu "segredo".

Eu não via a hora de conseguir concluir meus projetos e revelar minha identidade definitivamente mas, o problema é que, por absoluta falta de tempo, todos estes projetos não saiam do lugar. Eu tinha que priorizar outros trabalhos e acabava ficando para trás, o livro não saia do lugar nos últimos 4 anos.

Havia um outro ponto importante e impactante em tudo isso. Meu marido que, inicialmente, achou que seria uma boa ideia viver como "LobaMuitoCruel, passou a se sentir incomodado com seu crescimento, com o assédio e pelo fato de que, mesmo que eu fosse a mesma pessoa como Anna ou como "LobaMuitoCruel", era como se eu tivesse uma vida dupla. 

Então houve um momento em que, juntando todos os motivos, todos os prós e contras, eu decidi por um fim na personagem. Foi uma atitude meio repentina no calor de uma discussão, mas que já vinha sido pensada há muito tempo. Por mais que eu marido achasse, naquele momento, que eu não deveria matar a personagem, na minha cabeça estava claro o que eu deveria fazer e qual atitude tomar. Em 07/11/2013 eu matei "LobaMuitoCruel"...

Eu não sei se irei continuar com o livro. Na verdade eu quero, mas ainda estou um pouco perdida em como fazer isso. Se eu retomá-lo, penso em escrever na terceira pessoa, uma ideia que eu já havia tido antes, sei que é bem mais difícil, principalmente para alguém que não é escritora como eu, mas eu acredito que me sentirei mais confortável fazendo dessa maneira. Certamente a "LobaMuitoCruel" me ajudava a me abrir e eu não sofria com a censura e retaliação familiar.

Quanto a mim, continuo a mesma pessoa, sempre fui a mesma pessoa. Claro que tudo ainda é muito estranho para mim, é como se tivessem me despido em cima de um palco perante milhares de pessoas, principalmente quando olho para todos os meus seguidores no Twitter. Eu sempre fui o que sou, mas não terei a mesma liberdade em abordar determinados assuntos ou relatar determinados acontecimentos colocando a segurança dos meus amigos e familiares em risco. Também tenho que tomar muito cuidado com o que digo para que as pessoas não tomem como indiretas e se magoem. Com o episódio da morte do meu pai, em Julho desse ano, percebi que nem sempre as pessoas estão preparadas para ouvirem o que temos a dizer e que muitos vestem a carapuça às vezes de coisas que não tem a menor relação com elas. As pessoas que já estavam no meu Facebook real sabem que eu era mais tranquila apesar de todos saberem como sou "piadista" e exagerada, mas não tem como eu dizer que “ai que vontade de morrer” porque minha mãe iria me ligar e mandar o Samu, a Polícia, a GCM, o Exército, a Marinha, a Aeronáutica, o CSI e a Swat para me resgatarem achando que aquilo era um aviso de suicídio... Portanto, terei que pensar duas vezes antes de dizer algo até que algumas pessoas da minha família se habituem. São muitos seguidores, é gente demais, isso me assusta sempre. 

Hoje minha revelação de identidade completa 10 dias. Já estou me habituando a todas as mudanças, mas ainda é muito estranho e confuso. Ainda não consegui migrar minhas redes, mas também não irei continuar ativamente com todas. Ainda me sinto despida mas penso: não é para isso que vim mesmo?





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